Duas ruas, muitas histórias
Foto: Dave Senigo
A Vila Ida é um pequeno bairro, formado por duas ruas e sete travessas, situado na região de Alto de Pinheiros. Um bairro bastante peculiar, já que desde seu surgimento, na década de 1930, manteve-se como um pequeno povoado, onde nasceram e viveram várias gerações de algumas poucas famílias.
Mesmo com a transformação provocada pela especulação imobiliária, como tem ocorrido em tantos outros bairros da cidade de São Paulo, nas duas últimas décadas, antigos moradores ainda resistem no local, preservando a memória do bairro, cuja história resgatamos aqui, por meio dos seus depoimentos.
Rio Pinheiros antes e depois da transposição
O local onde está situada a Vila Ida era, originalmente, às margens do Rio Pinheiros até sua retificação, iniciada em 1928 e que se estenderia até 1950, com o objetivo de acabar com as inundações, canalizar as águas e direcioná-las para a Represa Billings, invertendo o sentido do rio, com a Usina Elevatória de Traição. Ali, existiam pequenas chácaras, nas quais se plantavam batatas, verduras, flores, e havia até uma criação de gado. Os produtos obtidos nessas pequenas propriedades eram comercializados no Largo da Batata, no bairro de Pinheiros.
As terras dessa área eram propriedade do governo do Estado que, durante a década de 1920, desalojou seus ocupantes, sem nenhuma contra partida, fazendo com que estes tivessem de buscar outros afazeres, como o pai de Laudelina Nieto Vidal que foi obrigado a deixar de fazer o que mais gostava, cultivar a terra, para trabalhar o resto da sua vida na gráfica da Companhia Melhoramentos.
Já Fátima Monteiro nos conta que seu pai tinha uma chácara de flores, onde hoje está a Praça Panamericana e o supermercado Pão de Açúcar.
Largo da Batata, no bairro de Pinheiros
No final dos anos 1930, às margens do rio Pinheiros, na altura do que hoje conhecemos como Alto da Lapa e Alto de Pinheiros, as obras de retificação tinham terminado e as terras dessa área estavam prontas para serem loteadas. Uma parte delas passou a pertencer à Companhia City – empresa de origem inglesa responsável pela urbanização de vários bairros na cidade de São Paulo, a partir de 1912, e continua presente no setor imobiliário –, que limitava com as terras do coronel José Romão Junqueira e o doutor Estanislau de Camargo Seabra.
Em janeiro de 1936, Estanislau loteou suas terras, abriu duas ruas com sete travessas e batizou o loteamento com o nome de Vila Ida, em homenagem a sua neta.
Panfleto de propaganda do loteamento, 1936
Esta informação desmente a lenda de que a Vila Madalena, a Vila Beatriz e a Vila Ida, bairros limítrofes, devem seus nomes às três filhas de um português que teria sido proprietário das terras onde surgiram esses bairros, como conta Milton Vaz Cardoso nascido na Vila Ida e amigo da família Seabra.
Estanislau, além de batizar a Vila Ida, deu nome a uma das duas ruas do loteamento. A rua principal, que liga o bairro de Pinheiros ao da Lapa, como ressaltava a propaganda para venda dos lotes, foi chamada Rua Dr. Alberto Seabra, em homenagem ao seu familiar, médico homeopata, já famoso na época, falecido dois anos antes, em 1934.
A outra rua, originalmente identificada como número 2, hoje leva o nome de Dr. Luís Augusto de Queirós Aranha e as travessas, na época apenas numeradas de 6 a 13, são atualmente as ruas: Japiaçóia, Papanga, Aefucá, Sararé, Atimba, Aecri e Putumuju. Em março de 1936, havia apenas duas casas no loteamento. Em outubro do mesmo ano, já eram 26 as casas construídas, todas já habitadas.
Daqueles chacareiros que haviam perdido suas terras, alguns permaneceram no lugar até comprarem lotes vendidos pelo dr. Estanislau e construirem suas casas, como foi o caso dos pais de Laudelina Nieto Vidal, Lioji Hiraichi, Fátima Monteiro e da família Tanaka.
Segundo o Gê (Gerson Luiz Rosa de Jesus), nascido na Vila Ida, os primeiros moradores eram famílias vindas do interior de São Paulo, de cidades como São Manuel, Itapira e Campinas, e também trabalhadores de bairros como Pinheiros e Bela Vista.
Nair da Siva moradora da Rua Dr. Alberto Seabra, conta que seus pais trabalhavam em casas no bairro de Pinheiros e moravam em um barraco na Rua General Antônio Rosa, no Jardim Paulistano. Eles encontraram na Vila Ida a oportunidade da casa própria, onde Nair, com 75 anos, vive até hoje (2015).
Assim foi se constituindo a Vila Ida, ficando separada das terras que formariam o bairro Alto de Pinheiros por uma fila de eucaliptos, na década de 1950. No começo, a Vila Ida também era conhecida como Bairro dos Pretos, porque boa parte de seus moradores eram negros, muitos deles trabalhadores da Estrada de Ferro Sorocabana, como conta Gaitinha (Orlando Gonçalves).
O futebol era o lazer na Vila Ida. Campos e times foram criados nas terras vazias do que mais tarde seria o Alto de Pinheiros. A vida social do bairro girava em torno do futebol, uma tradição que se mantem até hoje, como lembra Luís Lima: “como pode uma vila com duas ruas ter tanto jogador bom de bola”.
Wladimir Rodrigues dos Santos foi um desses craques que começou como jogador nos campos da Vila Ida, e tornou-se titular do Corinthians, no período de 1972 a 1985, e um dos líderes da chamada Democracia Corinthiana.
Com o crescimento da população, junto com os campos de futebol e os times, também surgiram os bares e o comércio em geral. A vila com apenas duas ruas, chegou a ter 17 bares e um comércio de subsistência, mercearias, açougues, padarias etc.
Porém, na medida em que o Alto de Pinheiros começou a ser ocupado, os campos de futebol foram desaparecendo. Hoje, o time da Vila Ida, o 100 Querer, não tem um campo no seu bairro, então todos os sábados se desloca para jogar no campo dos adversários. Quando o bairro Alto de Pinheiros já era uma realidade, a Vila Ida passou a ser “uma ilha de pobres, cercada de ricos por todos os lados”, como diz Uraide da Silva Palante.
A lei de zoneamento mudou e o comércio desapareceu, como conta Edson de Melo Domingues. Atualmente, resta apenas a Padaria Milagrosa, ponto de encontro dos velhos moradores, muitos dos quais mudaram do bairro, obrigados a vender suas casas em função da especulação imobiliária, mas não perderam o vínculo com Vila Ida. Alguns ex-moradores, por exemplo, nunca transferiram o seu título de eleitor para voltar ao bairro em dia de eleições e reencontrar os amigos na Padaria Milagrosa.
A lista de campos e times de futebol que existiram na Vila Ida é extensa. Gaitinha (Orlando Gonçalves) e Luís Lima sabem muito bem a importância que esse esporte teve no bairro, fazendo dele uma referência, durante muito tempo. O primeiro time, formado em foi o Diamante Negro, que depois passou a chamar-se o Clube Atlético Vila Ida.
Foi esse time que, pela sua qualidade e popularidade, despertou a atenção do Café do Ponto – que na época tinha uma unidade de torrefação na Rua Dr. Alberto Seabra, esquina com Dr. Luís Augusto de Queirós Aranha – como uma oportunidade de negócios. Graças a isso o Clube Atlético Vila Ida, ganhou uniforme, sede social e, novamente, mudou de nome, desta vez para Café do Ponto, e sua equipe juvenil passou a chamar-se Cafézinho. Assim nasceu o marketing no futebol, como conta Luís Lima.
Fundado em 1973, o time 100 Querer tem como lema: Humildade, Dignidade e Amizade. Mesmo sem ter um campo de futebol no bairro, o 100 Querer nunca deixou de jogar. Todos os sábados, o time tem como ponto de encontro a Padaria Milagrosa de onde sai para os lugares mais remotos da periferia de São Paulo.
Ideia original: LiAn - Produção: Busca Vida Filmes - Direção: Riba de Castro - Pesquisa: Debora Oliveira, Tásia d'Paula, Graça Cremon, Odete Seabra - Programador: Soter Monne
